terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Adolescente

Eu sou o primeiro segredo de Fátima. A minha mãe sabia mais do que a Lúcia e chegou primeiro a casa do meu pai. Quando soube que devia estar para nascer, o meu avô ficou tão emocionado que até quis oferecer ao meu pai um lugar no céu. Só não conseguiu porque a arma estava encravada.

O meu avô é uma pessoa muito acólita. Beba dois garrafões de vinho por dia. E um à noite. O que ele não admite é que se brinque com a Igreja. Quando estou à beira dele só posso recordar as sobrancelhas do Álvaro Cunhal. Se falar sobre a vida privada do Salazar já estou a pisar o risco. Proibido mesmo é falar daquela saia que ficou esquecida um dia na cama do ditador. E não convêm nada recordar que nesse mesmo dia o Cerejeira deu a missa de fato e gravata.

É melhor ficar por aqui. Quando acha que me porto mal, ou que me estou a esticar, a minha mãe, Fátima, obriga-me a ouvir o cd dos Blasted Mecanism. Fui!!

domingo, 22 de Novembro de 2009

O coleccionador de títulos.

Fica na rua alta empedrada. No cruzamento dessa com a mais estreita de todas as ruas da freguesia. Isso, à partida, faz deste espaço uma coisa torta, se é que a geometria do volume dos espaços permite esta definição. Num corpo entortado, no lugar para abrir dia sim dia sim, entre o pôr e o nascer do sol. Onde as pessoas são lavadas com álcool por dentro. Cá estamos. E daqui contamos.
No sitío do balcão de onde espreitam as torneiras de cerveja, o título a duas linhas, recortado de um jornal, aproxima uma de outra, as torneiras, e acredito que as deixa de sobreaviso quando diz: "contagiar os outros dá prisão caso haja esse propósito".
A propósito, ou sem propósito, cá se prova uma verdade das artes. A escultura é obra do acaso. E por acaso, agora que o dizemos, nunca antes ninguém teria dito como iria ficar bem, encostada à parede do lado esquerdo do balcão, uma mesa de trabalhos manuais de uma escola de Valadares. Não foi, mas parece que foi desenhada primeiro, e gasta depois, para estar num estado perfeito de integração quando chegasse o bar. Da mesma escola, alguém trouxe uma banca de carpinteiro com um torno. Foi música para os ouvidos do DJ. Tem sobre ela os pratos. Dentro dela os discos. E com ela as noites dançam.
Quem escolhe, quem põe, quem muda, quem dita o som do som é o homem quem entregamos o título desta história, o coleccionador do títulos. Esse, o tal que toma café, de jornal sobre a mesa e tesoura na mão. Recorta nesgas ou pedaços das vésperas. E cola as frases, boas ou más, nas paredes do lugar onde as pessoas vão à noite para lavar o corpo por dentro com bebidas para maiores de 16 anos. Agora que falamos em idade, vamos olhar de perto para uma pedra. Uma pequena pedra, exposta na banca grande de madeira, em cima de um pano escuro. Por cima dela, na parede de ferro, o título é: "uma pedra vencedora". O coleccionador acreditou ter ganho a noite com a ideia e bendisse a hora em que à hora do café lhe apareceu uma associação daquelas. Com a tesoura à mão, cortou o bem pela raiz.
Quando me aproximo para pagar a despesa, a caixa registadora guarda, de frente para os clientes, a colagem onde se pode ler: "repare no que sofremos".
Reparo que já é tarde e que hoje vou embora sem pôr a vista em cima do dono da casa. Olhando a direita vejo um título como se fosse um quadro: "já pensaram que eu tinha morrido", está lá, desta forma, na parede.
É junto à porta, à saída, que encontro esta noite pela primeira vez o coleccionador de títulos. Nem parece o mesmo quando não traz vestida a t-shirt onde mandou escrever local hero. Antes de chegar a ele passei pela colagem junto ao torno onde a música acontece e a colagem perguntava: "quando está de folga o DJ também dorme?" Talvez sim, talvez não. Aguardemos com expectativa pelas notícias do próximo pôr do sol.

Afirmativo

Quando se torna demasiado conhecido por factores externos às letras, um escritor não é os livros que escreve. É a cara que tem.
Quando assim, ele deixa de ter corpo. Para se juntar aos outros e passar a ser mais um homem transparente. Os livros contam histórias gémeas desta. São esses sobre lado esquerdo da prateleira de cima, esses mesmos, os de páginas em branco.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Amor em nota breve

Nessa noite, antes de saírem para ver o jogo de futebol no café da aldeia, o mais próximo que ele esteve do amor em estado líquido foi quando empurrou com a palma da mão, para baixo, a tampa-torneira no frasco de Dettol. As extremidades do membros superiores foram para a rua desinfectadas. Já quanto ao resto, dúvidas havia sobre a eficácia de uma lavagem cerebal. Porque o pecado, quando vem na forma de uma ideia pensada, não vai lá com anti-sépticos de trazer por casa.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Sexo masculino

Entra um som grave na sala. Vem do toque do arco nas cordas. É um violino a dizer que a banda sonora desta tarde é uma estação chamada outono. É um barulho quente. Antecede a entrada de uma voz triste. Podia ser o início de um filme nostálgico. Não é. É a realidade quando bate com força nas rochas. É o mar aflito por chegar a terra, o som do violino, preso, espalmado, num disco.
Quando todos os outros instrumentos chegam à música, há quem corra num estrado de madeira sobre a areia da praia. O vento, que não tinha sido convidado para a corrida desta tarde, lá acabou por se decidir a aparecer à ultima da hora. Trazia demasiadas histórias para contar e contou-as todas ao mesmo tempo. Assim o fez, sem pedir licença, só porque tem a mania que é uma força da natureza. Mal dava escutar o violino, a voz e os outros instrumentos todos. Que nos perdoe a natureza, em toda a sua força, mas o homem também tem poderes reservados pela experiência para os mais inusitados apertos. Com o ligeiro toque de um dedo, se aumenta a opção onde diz volume.
A corrida tinha sido programada para durar trinta minutos. No último segundo do tempo estimado à partida, o obediente corpo do corredor obedeceu à sugestão do cérebro e deu ordem de paragem às pernas. O corredor parou no exacto lugar onde estava um cartaz de promoção ao filme "Morrer com um homem". Viu ali um sinal para se começar a portar como tal.

Enquanto dormes

Numa luz escura, para o interior de uma porta, de costas para a janela, por baixo do candeeiro. Ali. De costas para quem espreita de fora, o vulto de um homem segura qualquer coisa onde escreve as coisas mais difíceis de dizer no momento mais difícil de escrever. Começou a carta com um banal "enquanto dormes", para logo apagar essa ideia que dava a ideia de estar a colocar a remetente perante um título roubado à pressa da prateira de uma loja de conveniência, para desenrascar uma situação complicada. "Enquanto dormes" não seria, portanto, a linha de abertura da carta destinada à mulher da vida do senhor que segura a pena. A delicadeza do caso aconselha a desambiguar a palavra pena. Pena era a caneta mais antiga lá de casa, a que estava mais à mão quando se foi lembrar, à tardinha, de falar por escrito com ela. Pena era um sentimento para riscar do dicionário sentimental, mas era também o estado de espírito de um homem triste por ter escrito pela última vez há mais de um ano, e por, quando o fez, o ter feito para pôr o nome num cheque. Impagável, aquele momento de contrição absurda.
O caminho não era aquele. E por aquele caminho a carta não chegaria nunca aos olhos da destinatária. Estava sem dar conta a seguir todas as indicações que levavam a detalhes. A rua para onde tinha de escrever não era por ali. Nem de longe, nem de perto. Voltou agarrar a pena na mão direita e foi direito ao assunto. Disse tudo num fôlego e a prova está no papel dobrado em três, com mil cuidados.
O envelope está fechado quando uma funcionária dos correios o pousa no chão cinzento da balança. 78 gramas. Bem pesadas, e bem vistas as coisas a frio - como a temperatura do chão da balança - as palavras que lhe pesavam toneladas e por isso custavam a sair, não eram assim tão carregadas quanto isso. Mais do que uma teoria, a relatividade é um conceito prático.
No caminho de regresso a casa, releu todas a frases com a mente focada no príncio que era para ser "enquanto dormes" mas que não foi. Mas que contava tudo sobre a forma dos olhos dela nas diferentes partes do sono. Estendidos nas noites de paz. Enrugados se havia tempestade no sonho. E a boca, aberta ou fechada não importa, a boca era sempre dona e senhora, única dos seus beijos, a boca era, a dormir, o lado meigo dos sorrisos serenos. O cabelo dela assistia a todos estes movimentos de olhos bem abertos e dançava da almofada para os lençois. Os braços abraçam e as pernas caminham enquanto dormes. E a voz que vem de perto para dizer que te ama, vem desta boca que te dá um beijo e tem uma letra igual à letra da carta que está para chegar.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

A palavra fim

O relógio vai ser obrigado a dar trinta voltas para trás. Para fazer doze horas vezes dois ao longo de quinze dias. Vamos a pé até ao passado, que este é recente e só foi há duas semanas.
À medida que Zurique se vai aproximando das rodas do avião, caminha para o fim o primeiro episódio da série 1 de Californication. O Ipod está preso entre os dois apoios de cabeça dos bancos da frente. É agasalhado por uma capa de silicone, feita à medida e com a intenção óbvia de servir de apara quedas: é uma espécie de salva-vidas para gadgets. Modernices.
A viagem a Zurique foi marcada com o propósito de ir ver a sorte futebolística de Portugal a caminho da África do Sul. Um assunto de nível mundial. Coisas da Bola.
Às voltas com um discurso redondo, o pensamento circula pelas décadas antepassadas, quando os portugueses desembarcavam aos jorros, aviões fora, e procuravam na Suiça, aprender coisas simples como qualidade ou segurança, em francês ou em alemão, visto que em Portugal, essas palavras eram de circunstância, sem significado prático.
Em cada uma das três noites em Zurique, nas horas a seguir ao jantar, fomos caminhar pelas ruas desertas, mas profundamente belas, da cidade. Numa dessas três noites, escolhemos andar pelas artérias sugeridas pelo taxista que nos trouxe do hotel para a baixa. Era um homem grande. Conduzia um jipe antigo com cheiro a Marlboro. Tinha o cabelo a fugir para o comprido e o bigode a fugir do lábio de cima para o lábio de baixo. É isso, o motorista de táxi tinha ar de motard. Era simpático, dizia-se pasmado com a qualidade do meu inglês. Falava da língua inglesa. E eu, que sou dado a equações mentais instantâneas, somei english mais Zurique e as páginas tantas já estava nas páginas do Assassino Inglês, de Daniel Silva, e olhava pelo vidro, a ver se reconhecia os sítios por onde tinha andado Gabriel Allon.
O meu camarada de trabalho, desperta-me daquela conta de somar ao introduzir na conversa a emigração portuguesa para a Suíça. Recorda um casal de amigos dos pais. Viviam no interior de Portugal e quando se reformaram tinham à espera na aldeia portuguesa um casarão de traço helvético. Disse-me que viviam nos anexos e que só utilizavam a mansão nos dias, escassos, em que recebiam visitas. Ainda me disse que na sala e nas outras divisões, os tapetes e os sofás estavam plastificados, para não estregar. Portuguesinhos, balbuciei de imediato. Modernices dos anos oitenta, suspirei em seguida. Para me recordar imediatamente da capa de silicone do meu Ipod. Vai já para o lixo. Quero admirar a beleza toda deste objecto de design. Se estragar, estragou. Quando estragar, estragou. Não há que ter medo da palavra que chega sempre em último lugar e que diz fim.

domingo, 8 de Novembro de 2009

5165

Porto - Faltam seis quilómetros para a última linha.
A quem vem desde o hospital de Santo António, a caminho do Palácio de Cristal, o lado direito da rua oferece, antes de chegar à curva, pelos menos dois mini-estabelecimentos especializados na venda de vinho a retalho. Vamos entrar no primeiro, pelo acaso de ter sido o primeiro a abrir a porta, ainda antes das oito da manhã, num domingo molhado, cinzento e de termómetro encolhido. É um pão com queijo se faz favor e um Sumol de laranja. Tudo bem, pode ser FriSumo de ananás. E era uma vez o jejum. Um café quando puder, deixe estar, termine de lavar a louça à vontade, depois traga também uma garrafa de água, natural, das pequenas.
Lindinha nunca saiu do metro e cinquenta de altura, passa o dia de um lado para o outro a gastar o chão dos quatro metros quadrados do balcão. O marido de Lindinha é o dono do tasco e quer-me parecer, o proprietário daquele par de vidas. Hoje tem o emprego de indicar o caminho da casa de banho aos homens e às mulheres que chegam para a maratona da cidade. Na soleira da porta, com vista os jardins do palácio, o senhor gestor do negócio e um amigo que se ainda não está bêbado vai ficar, confidenciam que o Tono picheleiro também vai à corrida. Vai o Tono e vão mais 7499, incluindo este.
Dizem que a descer todos os santos ajudam? Então os santos de nada servem, porque só ajudam quando não é preciso. Bonito era vê-los aqui, no lugar onde a prova arranca, disparada no tiro de partida da pistola, aqui com a subida da rua Júlio Dinis pela frente, tal parede para trepar em direcção aos céus, sem santos para dar uma ajuda, eles que por serem nove horas devem estar a acordar para o dia e já a pensar na melhor forma de ajudar à missa de domingo. O pó de açucar das bolas de berlim, na montra da Petúlia, significam o topo do cume. A partir daqui é em linha recta, menos na rotunda Boavista, e a descer.
Quem chegou mesmo em cima da hora partida foi a chuva, fraquinha, mas persistente, como um corredor de fim-de-semana, inscrito a troco de cinco euros na corrida dos seis mil metros, ou mini-maratona. O quilómetro um demorou tanto tempo a chegar, que quando chegou, julguei estar já a chegar ao Japão, mas afinal não. Eram apenas turistas nipónicos, aos magotes, de dentes à mostra máquinas fotográficas ao peito, perto da zona dos hotéis.
A meio do viaduto das Andresas, por cima da VCI, o sinal de meio caminho andando. Três quilómetros nas pernas, numa altura em que as portas psicológicas da caixa de ar tinha sido todas abertas com sucesso e relativa facilidade. O aquecimento em marcha cautelosa estava feito, os pés podiam bater com mais força no asfalto. As ultrapassagens sucediam-se ao ritmo de duas ou três centenas por quilómetro. Junto ao Pinheiro Manso, o trajecto reentrou na avenida da Boavista, para que daí a nada surgisse uma recta em versão xl e sempre a descer, antes da cortada à direita para o parque da cidade e para o fim da prova.
Acabou, num estalar de dedos. Sem dor. De burro, de joelhos ou outra. Devia ter investido mais 5 euros. Davam direito a mais sete quilómetros e davam uma outra justiça à forma física destas pernas. A esta hora, os membros superiores do mesmo corpo dirigem-se ao teclado e perguntam onde está o homem que nunca se levantava antes da uma da tarde ao domingo e que fumava mais de um maço de cigarros por dia. Está aqui, mas não é o mesmo. O tempo corre. Hoje acompanhei o tempo com o dorsal 5165. Ainda estou para entender porque se chama dorsal a um número que nos dão para pôr ao peito.
Seis quilómetros em 32 minutos. Ritmo de passeio. Não houve mais desenvolvimentos sobre a maratona xs do Tono picheleiro. Regresso ao local da partida à mesma velocidade. Menos uma bola de berlim na montra da Petúlia. Porto. A última linha, afinal marca quase 12 quilómetros.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

O filho mais velho do leiteiro

Mesmo que no começo, como está a acabar de acontecer, haja um recurso insistente a palavras como veloz, rápido, depressa ou até mesmo supersónico, não há-de ser por aí que estas linhas vão conseguir fugir ao destino. É fatal como o destino, que não a consigam fazer, a tentativa de fuga ao inevitável.
Como em tantas passagens do livro do século XXI, esta página também contém o antes e depois do 11 de setembro de 2001. A história de hoje vai preferir contar a evolução cronológica em marcha atrás e estacionar a narrativa numa rua de paralelo. Vem, com um carrinho de mão nas duas mãos e à frente das duas pernas, o homem a quem chamam de Bin Laden. Hoje tem a barba cortada. O cabelo também foi à tesoura, antes de ser penteado em partes democráticas -tanta coisa para dizer risco ao meio. Quem o vê hoje pela primeira vez, vê-se e deseja-se para compreender o porquê de se chamar Bin Laden a um pobre errante, cuja mente deixou de funcionar nas perfeitas condições vai para mais de quarenta anos.
Óleo, continua a faltar óleo ao carrinho mono-roda. Estridente no paralelo, Bin Laden levanta com as mãos, empurra e carrega o meio de transporte cuja chapa já foi chapa e agora é ferrugem prestes a passar a ser pó. Leva no carrinho uma velha tábua de passar a ferro. Não é assim que vai o consertar, concerteza. Leva umas quantas barras de ferro velho e leva um monitor de computador, uns cabos e um teclado. Ligasse ele aquilo tudo, ou a aquilo tudo, fizesse ele uma visita ao google e escrevesse Bin Laden e ficaria a saber que antes de ter ido ao barbeiro, a cara dele era a cara chapada do homem mais procurado do mundo. Oito anos depois do 11 de setembro ele, que é o filho mais velho do último leiteiro da freguesia, ele ainda não sabe do ar terrorista que a junção de nariz, queixo, olhos e pêlo fazem naquela cara.
Antes do 11 de setembro de 2001, ele já sabia de ser parecido, no que diz respeito ao rosto, com o filho único de deus. Cabelo e barba selvagem. Lá na terra, as pessoas pediam a outras pessoas para não dizerem que aquele maluco tinha cara assemelhada à de Jesus.
Nem antes, nem depois. Nunca. Ele nunca se achou um cristo. Esta tarde, a dois quilómetros do sítio onde o tinha visto pela última vez, o homem a quem ninguém fala, mas a quem chamam, quando estão para o chamar mais ou menos pelo nome, de Beto Leiteiro, seguia de carrinho de mão numa estrada de asfalto. Desta vez levava uma velha máquina de lavar roupa. Qual o melhor detergente para dar brilho a esta história?

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

O homem que sabe sempre o que quer

O homem que sabe sempre o que quer, cheira mal. Cheiro muito mal mesmo. O homem que sabe sempre o que quer era um adulto moreno, nos anos oitenta, que vestia uma camisa de ganga, azul clara, e umas calças de ganga, azuis escuras. Tinha os braços peludos, segurava a mulher pelo pulso, coitada, não pelo aperto nos ossos, mas por estar a ser obrigada a levar o nariz até às proximidades de um fedor promovido em horário nobre na televisão portuguesa.
Com essa coisa que estavámos a começar a chamar de publicidade, o homem que sabe sempre o que quer multiplicou-se. Era vendido e apresentado com a mesma pujança em prateleiras dos supermercados ou nas montras arrumadinhas da loja lá da freguesia. O terrível odor foi conquistando o nariz do país, venda após venda, rua após rua, uma cidade atrás da outra. Em simultâneo, a campanha emprenhava a recente sociedade democrata pelos ouvidos, com esta frase que podem já estar cansados de ler, esta que diz... o homem que sabe sempre o que quer. Ele era um gajo muito mal vestido e a ele coube o mérito de espalhar a falta de gosto na hora de escolher a indumentária pelo território inteiro: de norte a sul; do litoral ao interior.
Vinte e cinco anos mais tarde, o homem que sabe sempre o que quer ainda existe, mas só em espamos. Continua a ser detectável a cem metros de distância nos dias normais, ou a cinquenta metros nos dias em que estamos com gripe.
A maneira mais fácil de acabar com esta recordação é dizer que o verdadeiro homem que sabe sempre o que quer vai levar para a cova o tudo aquilo que foi em vida, sem tirar nem pôr. Esta visão do inferno faz-me chamar um táxi: "é para o crematório se faz favor".
Faço a viagem com a ideia de reservar desde já uma data incerta, mas que fique de preferência o mais distante possível nos calendários. No percurso, uma dúvida: como é que o homem que sabe sempre o que quer nunca soube escolher um perfume de jeito?
Só de pensar em tudo isto, o meu nariz já não sabe se está no táxi ou se está junto da língua para testemunhar o relato da história. Reconheço a cara do motorista do táxi de algum lado. Dá-me a ideia de já não a ver há uns bons vinte e cinco anos. Rezo por uma luz vermelha no próximo semáforo...

Um parágrafo de amor

E viveram felizes para sempre. Ela, que só tinha olhinhos para ele, pressentiu o princípio dos dias contados quando a leitura dos livros com letras mais pequeninas se assemelhava, a ela, a uma forma de utilizar a força como um meio para atingir um fim. Primeiro custava. Custava muito. Depois doía. Doía muito. Não tardou até que o simples descolar das pestanas se transformasse num sacrifício desumano. Não que aquilo fosse sinal de que o amor estava a desaparecer a olhos vistos. Não, não. Não era. Aquilo era uma simples dor física, facilmente resolvida com uma ida ao oftalmologista. O problema residia no facto de ela, um dia, há muito tempo, ter prometido olhinhos só para ele. Pensando na jura antiga, foi então que decidiu arriscar a cegueira a colocar-lhe, assim, de um dia para o outro, um valente par de óculos.

domingo, 1 de Novembro de 2009

É sábado, é de manhã, é um mundo na baixa do Porto

Uma rapariga dança no passeio, na metade do caminho da rua Formosa, entre Santa Catarina e a rua da Alegria. As calças são justas, pele de zebra. Claro que sim, pretas e brancas. Para cima tem uma t-shirt azul do super-homem. Rodopia com a dança dos pés e rodopia com o braço direito ao alto e de indicador em riste.
O Michael Jackson está no primeiro andar, no princípio de uma carreira a solo, a ensaiar uma música à qual vai dar o nome de don´t stop till you get enough. Este som, que vem da janela de um velho prédio da baixa do Porto, começa agora a indavir as ruas, e não duvido que, um dia, vá conquistar o mundo.
O mundo está a encolher a olhos vistos. Apenas um quarteirão mais acima, em Fernandes Tomás, o Woody Allen está no primeiro lugar da fila na paragem de autocarros, mesmo em frente ao Plaza. Tem as mãos nos bolsos, a cabeça levantada na direcção do telhado da igreja dos congregados, os óculos pretos em massa, no lugar do costume. Só a cor do cabelo destoa um pouco. É de um castanho uma pouco mais claro do que o normal. Isso e a roupa levam-me concluir que aquele Woody Aleen é o da década de 70.
Vinte metros mais acima, a loja de instrumentos faz da montra um palco onde cabem a bateria, uma guitarra eléctrica, duas violas, uma concertina, o contrabaixo e os ferrinhos. Um dos tripés da exposição está vazio. É isso, falta o clarinete. Entro, pergunto e o dono diz que acaba de ser despachado por via marítima para Nova Iorque.
Pode ter sido de ter dormido poucas horas de sexta para sábado. Mas já que estou acordado e é sábado de manhã e estou na baixa do Porto, o melhor é parar de fazer filmes. Deve ser do estômago vazio... Subo as escadas rolantes no interior de um centro comercial e é aí que trato de elevar esta tosta mista, onde misturo realidade e ficção, ao extremo. Não é que para lá de um muro baixo em acrílico transparente, o Leonardo Cohen desembrulha um bolo de arroz com mil cuidados, deslumbrado com a beleza do papel, mas também por causa da velocidade que a idade lhe autoriza os movimentos. Sim. A idade, com o tempo, dá ao corpo um limitador de velocidade.
O Cohen foi o único a chegar aqui a esta história em tempo real. Talvez por isso permaneça sentado. A molhar o bolo de arroz no café e a lamentar a pequenez da chávena, enquanto que o Michael Jackson se despede dos músicos com um até sempre e o Woody apanha o autocarro, já a pensar que a viagem de avião o vai fazer chegar aos states muito mais cedo do que o clarinete. Quando o instrumento chegar aos Açores, ele afinal conseguiu acabar o argumento de mais um filme e começa a dizer em voz baixa que a viagem ao Porto talvez tenha sido uma perda de tempo porque já não vai ter tempo para músicas.
O Jackson descansa em paz sem problemas de tempo.
O Leonard Cohen consegue arranjar tempo para mais um bolo de arroz no Plaza.
Ao atravessar a rua, a rapariga das calças de zebra mistura-se com a passadeira. Perco-lhe o rumo sem perceber se o tempo vai fazer dela uma super-mulher.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Se esta pena fosse minha

Se esta pena fosse minha, a tinta já nem era tinta, nem isto seria, preto no branco, uma tentativa taralhouca de dizer um grito. Esta tinta era vermelho vivo, era sangue, e o alvo podia ser um carneiro, mal-morto, mas carneiro.
Se esta pena fosse minha, a letras batiam na página ao compasso do baixo dos National e eu cantava com as letras uma múscia de amor sem refrão. E não precisava de tanto espaço para dizer saudade... reduzia o vocábulo a menos de metade e aumentava o seu próprio sentimento, dizendo pura e simplesmente... tu.
Porque, se esta pena fosse minha, isto não era uma página, era um rádio. E eu transmitia, de megafone em punho, a minha própria campanha eleitoral. É que, se esta pena fosse minha, fazia do teu amor uma bandeira, cavava trincheiras, partia destemido e salvava o mundo.
A música Slow Show está incorporada em duas aplicações brancas inseridas nos ouvidos. Toca sem fim à vista em modo repeat.
Este texto não teria de ser um disco riscado, se esta pena fosse minha.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

A torneira

A cabeça de um homem é um quarto às escuras. Durante muitas horas. Ao longo dos dias, que se transformam em semanas que por suas vez passam a meses, meses esses que quando vamos a ver já são anos e entretanto passou uma vida inteira.
A luz, no quarto às escuras, acende porque sim, acende porque não, acende com um beijo, acende com uma dor, acende com a importância ou com a nulidade.
Hoje a luz do quarto às escuras deste vosso senhorio, acendeu para dizer a esta mesmíssima pessoa que... torneira podia ser um bom título. É capaz, se for aprofundado o tema, se a ideia conseguir chegar à fonte que armazena a água que há-de ser conduzida a este e a outros lares. Mas hoje não. Porque sim e porque não. E porque o quarto está bem às escuras.
Chego ao WC do meu local de trabalho e reparo que algum colega menos atento deixou a água a correr. Fecho a torneira, como quem coloca um ponto final num texto.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

O desconhecido profundo

Quando decidiu sair, fez o caminho até à porta em silêncio. Ia bravo por dentro, vermelho por fora, brusco nos passos. A saída apressada de quem vai cego de olhos abertos é sempre uma forma infeliz de virar as costas aos problemas. E uma situação complicada não fica para trás com o estalar do dedo médio no polegar.
Um homem, de cinquenta e cinco anos, quando decidiu abandonar um momento difícil de supetão, guardou o problema numa mochila invisível, que lhe faz pesar a nuca e todos, mas todos mesmo, já se aperceberam que aquele queixo sempre levantado não é confiança, mas retracção. E retracção é medo.
Quando decidiu sair com a discrição dos cobardes, e escolheu ir assim sem nada, estava à espera de escapar incógnito, deixando em casa o peso do passado. Mas ao ir assim sem nada, foi às escuras sem a pasta onde guardava as letras todas do abecedário. Pouco tardou e não sabia sequer o próprio nome. A memória ainda o levou à estação do comboio, mas no guichet quando quis pedir um bilhete, já não o soube fazer e ficou a olhar para o empregado como quem nunca não soubera o que era um diálogo. Sem palavras para a troca, também não soube responder aos nomes todos que todos os homens e todas as mulheres da fila começaram a dizer. Não eram coisas simpáticas, o que por esta altura ele também não sabia. E apesar disso também não seriam coisas tristes ou negativas, porque isso, para ele, representava de igual forma o desconhecido profundo.
Resistiu duas semanas à amnésia das palavras. Sem pão, nem água. Sem amor, um sorriso ou uma lágrima. Morreu. Quando morreu já não era homem. E um homem sem palavra, não chega a ser sequer um animal.

(passem para cá um euro)

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Nobel

À página 110 de "A minha herança", de Barack Obama, e à página 46 de "Caim", de José Saramago, confirmam-se as expectativas. O nobel da literatura português escreve melhor do que o nobel da paz estado-unidense. E não acredito que venha a mudar de opinião, terminadas as leituras de um e de outro livro.
Fruto da evolução dos tempos, e quando comparado com Caim, porque as narrativas visam a vida de um e de outro, Obama tem uma existência mais pacífica do que a do segundo filho de Adão. E Barack até passou menos tempo com o pai.
Saramago voltou a apontar o dedo à testa de Caim, como deus já o tinha feito, e as armas voltaram disparar desde todas as brechas cristãs. É uma aceitação dos factos muito pouco católica. É atirar a matar sobre um irmão. Barack, chega aqui um minutinho e traz contigo sais minerais e diplomacia.
E tu até que não escreves mal. O Saramago é que escreve muito. E muitas vezes bem.

Eu vi um clone

O lugar é a bancada central de um estádio, na última fila de cadeiras. A hora é depois das oito e vai durar noventa minutos. O palco é gigante, bonito de ser visto, mesmo a partir de uma altura de dezenas de metros. O palco é verde cor de relva. Chegam os artistas. São 22, puxados por mais quatro. Um destes da frente vem com uma bola na mão. Esse mesmo tem um apito, outros dois seguram bandeiras pequenas e o último está com ar de quem vem para ajudar no que der e vier e pouco mais do que isso. Os quatro são o corpo físico das regras que estão escritas em de número de 17, num livrete com 136 páginas. Nota adicional: as leis, inseridas uma pen, incorporadas junto às baterias do auricular, podem tornar mais competente e menos esquecido o homem a quem uns chamam juiz e outros árbitro e muitos outros gostam de chamar filho de mulher dada ao sexo pago.
Os 22 actores representam dois lados. A cada lado a sua cor. Neste encontro, os que vestem de azul e branco abrem as portas de casa a homens e rapazes tapados por roupa preta dos pés à cabeça.
Nos azuis há um defesa romeno. Quando era pequeno, os pais não o deixavam ir brincar para muito longe de casa. E ele, que agora já tem vinte e tal anos, fica preso ao lugar onde mora. Disseram-lhe para jogar no lado direito da defesa e ele joga no lado direito da defesa. Só aí, porque ir mais para a frente seria como ir brincar para longe de casa e os pais podiam não gostar muito da ideia.
Nos azuis, não posso deixar de reparar num argentino de cabelo comprido. É avançado. E tem dificuldades respiratórias. Dá o ar de quem sufoca, quando está fora de área. Lá dentro, é matemática: pé + bola = a golo.
Há dois camarotes pequenos ao nível da relva. É para os amigos mais chegados e para o administrador da equipa de trabalho. No camarote do lado esquerdo, manda um miúdo de 32 anos. A forma como abre o blazer e deixa a mão esquerda na anca... E a direita levantada para os gestos que dão voz à voz que não chega à parte mais longe do campo... E na sala de imprensa, o jeito como o dedo o indicador direito bate levezinho na mesa, ao lado do pé do microfone, quando os olhos baixam e deixam de olhar de frente os olhos de quem pergunta e espera por uma resposta.
Domingo, no estádio do Dragão, eu vi um clone. Sem ponta de medo cénico, em noite de estreia.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Deus é um bom dentista

A odontologia, quando é trazida a este texto, como é aqui o caso, não vem para dar lições e muito menos aqui está para fazer um qualquer exame oral a quem quer que seja.
A odontologia está aqui para mandar umas bocas. Como aquela senhora de sessenta e quê anos, aquela de pele muito vermelha e de cabelo muito amarelo. Aquela de cú bem gordo, essa mesma, que tem metade das nádegas para lá das bordas (ai que bordas é uma palavra tão mas tão evitável senhor António) do banquinho de praia.
Sentada com cinquenta por cento do rabo, ia dizer rabo, mas é melhor não, porque rabo é uma palavra com muito poucas letras para aquilo que ela pousa desajeitadamente quando está naquela figura com um pé no pinhal e outro na estrada nacional.
Estamos em Esmoriz, e ela, com 50 por cento do pandeiro sentado e 50 por cento vergado pela ditadura da lei da gravidade, está ali também para mandar umas bocas. Diz quem sabe que são 10 ou 15 euros por boca.
Graças a deus, diz como quem agradece em alívio, a meia dúzia de clientes que chega lá dia sim dia não. Sem marcar consulta. Mas com direito a anestesia local.
 
Free counter and web stats